Friday, August 23, 2013

Dias difíceis à vista

Os primeiros indícios de que o tratamento será doloroso começaram a aparecer. Os lábios, que eram apenas ressecados, começaram a arder. Foi meio que do nada. Fui dar aula na manhã de sábado, larguei ao meio-dia e, depois de um cochilo pós-almoço (com Epidrat nos lábios, claro), acordei com eles ardendo. Quando olhei no espelho, vi que tinha umas pequenas bolhinhas vermelhas, semelhantes a uma rubéola, e entrei em pânico. É que, independentemente do tratamento, sofro muito com aftas e lesões nessas mucosas e já cheguei a ter 33 aftas ao mesmo tempo. Nesse dia, perdi o bloqueio com gosto/cheiro/textora horríveis do bepantol e passei nos lábios antes de dormir.

Acordei melhor da ardência e sentindo menos atritos das bolhinhas ao passar um lábio no outro. Mas elas continuaram ali, só que discretas. Com o passar dos dias, elas estavam lá, mas sem incomodar muito. Justamente na quarta-feira, parece que elas só esperaram o fim da minha consulta com o dermatologista para pipocar de vez. De lá até hoje, minha boca está praticamente na carne viva. E, pelo que eu li nos blogs da vida, a tendência é piorar. Isso simplesmente me desespera, porque, sério, incomoda muito. Tenho dormido de Bepantol (porque usar aquilo durante o dia não rola), mas durante o dia me viro com o Epidrat. Descobri uma coisa que acalma a pele um pouco. Tiro o balm com um guardanapo/lenço de papel macio e passo um algodão umedecido com água bem gelada. Dá um alívio passageiro e a pele respira um pouco do excesso de balm.

Hoje também senti que meu humor tá meio irritável. Não sei se posso atribuir ao remédio, já que tenho uma discreta TPM. Bem discreta mesmo, de modo que às vezes nem percebo. Daí não dá pra dizer que é o remédio.

O alerta do meu namorado começa a vir à tona: ele sempre me dizia que tinha medo de quando começasse aquela fase do tratamento em que você vira baranga porque presumia que isso pesasse mais no meu emocional que os efeitos físicos. Ontem os primeiros sinais apareceram, e a ficha caiu quando tentei beijá-lo e não consegui porque os lábios ardiam. Meus cabelos estão uma palha e, se antes eu ainda arriscava um batonzinho por cima do balm, agora nem isso. Ando por aí de cara lavada e cabelo ressecado. Daí quando você se lembra que a tendência é piorar, dá um desânimo.

Wednesday, August 21, 2013

Encerrando o primeiro mês

O primeiro mês de isotretinoína encerra amanhã, e minha visita ao dermatologista foi hoje. Mas o grande susto mesmo foi semana passada: embora estivesse dentro do previsto, meu colesterol LDL subiu muito! De 104 (que já não andava essas coisas todas), foi para 141. O triglicerídeo, que eu esperava aumentar, permaneceu lyndo, e meu fígado anda um amor. Mas, convenhamos, né? Vindo de uma família com histórico de problemas vasculares, eu deveria querer um LDL abaixo de 50 pra garantir a integridade dos meus membros.

Pois bem: meu dermatologista, apesar de muito atencioso, não julgou necessário prescrever dieta, mas, diante da minha apreensão, me encaminhou à nutricionista. Melhor assim. Relatei-lhe um ganho de peso nos primeiros dias, mas na última semana me pesei duas vezes e voltei aos 48 kg. Resumindo: não sei se foi o remédio ou o fato de eu ser raceada com sanfona (sim, eu sou). O fato é que, se eu passar dos 50 kg, meu tratamento passará a ser de 6 meses, então tenho mais um bom motivo para perseguir meus desejados 44 kg. Nutricionista, aí vou eu!

Sei que o primeiro mês é muito cedo para dizer qualquer coisa, mas estranhei não ter aparecido aquelas espinha mutantes que todo mundo tem em começo de tratamento. Não sei se porque o tratamento foi logo após um tratamento com ácido (que já tinha se encarregado de expulsar um mói de porcaria), mas só apareceram três espinhas, e só uma grande. Já meus cravos se multiplicaram de um jeito que, quando eu sorria, eles meio que brotavam do queixo, algo meio nojento. E agora sinto o rosto mais liso quando eu vou lavar.

Vamos ao desagradável da história (fora estar há um mês sem beber): parece que nada cicatriza em mim. Pra se ter uma ideia, coletei sangue para exames na última sexta e até agora o furinho do braço não cicatrizou, bem como as espinhas que nasceram no começo do tratamento, que ainda formam aquelas cascas secas. Fico até com medo de tirar bife na unha e dos calos da sapatilha de ponta, porque chega uma hora em que você não reconhece seu corpo. Minha boca ressecou tanto que venci o bloqueio e dormi com bepantol nos lábios. E vou dizer, viu? Aquilo só pode ser invenção divina! O que dá conta mesmo é Epidrat durante o dia e Bepantol durante a noite. Ontem no banho, senti uma queda maior que o habitual dos meus cabelos. Fora que estão uma palha, nunca os vi tão ressecados.

O médico disse que tudo isso era normal e que estava satisfeitíssimo com a desobstrução dos meus poros, que o resultado tava sendo bom e rápido. Eu mesma olho no espelho e não reconheço a pele que vejo, tão aveludada que nem parece eu. Lógico que meu receio é terminar o tratamento e não vencer a acne, afinal na minha idade a coisa é bem mais tensa, e a probabilidade de isso acontecer infelizmente é alta. Mas eu precisava tentar, né?


Sunday, August 04, 2013

Utilidade pública

Se alguém um dia teve saco de ler esse blog em continuidade, há de saber que em alguns momentos na minha luta contra a acne eu cogitei tomar isotretinoína oral e dei para trás. Hoje, convencida de que tudo o que eu poderia ter tentado com ácidos, antibióticos e até pílulas contraceptivas já foi feito, tomei um surto de coragem e decidi tentar o famigerado Roacutan. Essa decisão contou com a colaboração, entre outros, da nossa adorável Web 2.0 e seu conteúdo colaborativo, que são o céu e o inferno das potencialidades da Web. Explicando: muitas meninas, quando começam a tomar esse medicamento, fazem uma espécie de diário de bordo, já que o tratamento é longo, e os efeitos colaterais desanimam. Isso é muito muito importante para quem vai começar o tratamento entender o que acontece em seu corpo, já que as visitas ao dermatologistas costumam ser mensais e os efeitos colaterais, diários.

Quando comecei a tomar, me senti no dever de retribuir essa contribuição. Lógico, este blog é um diário pessoal, pouco divulgado, mas como muitas pessoas, ao cogitarem o tratamento, buscam relator usando o Google, vou criar uma tag para facilitar. No entanto, meu tempo é muito curtinho, e não dá mesmo para fazer um diário de bordo, como os usuários fazem. Então vou tentar comigo mesmo o compromisso de pelo menos uma semana contribuir. Será uma tentativa, nem sempre terei tempo ;)

Comecei o tratamento no dia 24 de julho, logo são 12 dias. Ainda tá muito cedo para dizer qualquer coisa. Logo nos primeiros dias, apareceu uma espinha gigantesca e cheia de pus no meu queixo, e me pareceu efeito do remédio, pois não costumo ter espinhas gigantes. Elas são frequentes, mas médias. Nos dias que se seguiram, mais uma espinha nasceu ao lado dela e prio! Já os cravos parecem ter se multiplicado. Meu namorado disse que nunca viu minhas costas com tantos cravos. Hoje no banho percebi que meu colo tá esboçando umas espinhas pequenas, mas no rosto, por ora, a coisa tá normal, apenas a pele mais sequinha do que de costume.

O sol, que nunca me incomodou, tem causado certo incômodo. Sou uma das poucas branquelas que não têm o menor problema com o sol, sequer usava filtro (sei, sou irresponsável). Hoje não não consigo sair de casa sem ele, sobretudo dirigir. O dermatologista me advertiu que o mal-estar maior seria com os lábios e, de fato, não fosse por ele eu nem me lembraria que tomo Roacutan. Como sou respiradora bucal, sofro muito com ressecamento, mesmo sem tratamento. O outro aspecto é que quaisquer estresses atingem minhas mucosas: lábios racham e fico cheia de aftas. Comecei o tratamento bem na semana de fechamento de artigos, aí já viu... Desde que comecei, tenho usado Epidrat desde sempre. O Eucerin, que eu já usava, começou a não dar vencimento. Também comprei um balm cheirosinho e coloridinho da Quem disse, Berenice? para tirar o pálido dos lábios, mas parece que o lábio suga ele em questão de minutos, tem que ficar retocando.

Desconfio que os lábios ainda vão me dar muito estresse. O médico já me advertiu para a possibilidade de usar Bepantol quando ferisse (ai!) e, se nesse comecinho ele já tá assim, imagine quando começar a judiação! Ao lado do nariz, um leve rachadinho, que ainda não chega a doer.

Sobre a dieta, não sei se sou sugestionável, mas já me senti mais gordinha essa semana. Aí fui me pesar e deu 49,9, e fiquei em pânico porque um quilo em uma semana é muita coisa pra alguém com minha humilde estatura. Aí me lembraram que eu tinha acabado de comer (muito!). O chato é que tenho comido muito com essa ansiedade, e muita besteira. E não sou mais nenhuma menina, logo esse negócio de colesterol precisa estar muito controlado.

Na última terça, tive uma dor de cabeça insuportável que cheguei a chorar, continuou na quarta e na sexta tive novamente. Aí fiquei com medo de que fosse o remédio e tal, mas como tenho muita enxaqueca durante a TPM optei por esperar um pouco e ver como minhas dores se comportam ao longo do ciclo.

Por enquanto é isso. O corpo ainda acordando para o tratamento. Rezando para que seja o menos sofrido possível, que meu sofrimento se limite a ser passar cinco meses sem beber vinho :)


Friday, May 17, 2013

São 20h13, e eu não estou em Curitiba, mas em Olinda. Depois de uma aventura por esse bueiro que algum desavisado insistiu em chamar de cidade, conseguimos chegar em casa - às 14h.

Depois de anos tentando vencer a fobia de avião, aproveitei uma dessas promoções mirabolantes para passar um fim de semana com meu irmão, que mora há dez anos em outra cidade, mas que eu nunca tive coragem de visitar, seja porque vivo correndo, seja por causa da fobia. Mas hoje seria o dia, apenas um fim de semana para me desafogar de anos sem férias.

Nosso voo estava agendado para as 8h43, saímos de casa às 6h. Mas quando nos deparamos com os primeiros pontos de alagamento, pedimos para minha prima, que nos levava de carro, parar na estação de metrô mais próxima, de onde seguiríamos para o aeroporto. Mas as estações de metrô estavam alagadas, e tentamos chegar às estações Ipiranga e Mangueira, mas até o acesso de carro estava impossível. A única estação onde conseguimos entrar foi Santa Luzia, que fica numa região mais alta, portanto menos alagada. Pegamos um metrô até a estação Joana Bezerra, onde pegamos o metrô linha Sul. Da janela, víamos um Recife irreconhecível. A Mascarenhas de Moraes parecia uma cidade fantasma, sem carros no sentido centro-subúrbio, só água. A essa hora, agradecíamos por estar seguros no metrô e tínhamos praticamente certeza de que nosso voo atrasaria pelo mau tempo. Minha sobrinha, que nos encontraria no aeroporto, sequer conseguir afastar-se poucos metros de casa.

Ao chegarmos no terminal de integração, procuraríamos um ônibus ou táxi para o aeroporto, mas fomos aconhelhados a seguir a pé. Chegamos pouco mais de 10 minutos atrasados, perdemos o voo. Como se tratava de uma tarifa promocional, o reagendamento custaria mais de R$ 700, por cabeça. Não tive outra alternativa a não ser sentar e chorar. Liguei para meu irmão, disse que não iríamos mais. Um mês de expectativa frustrada. Liguei para minha sobrinha e disse que por segurança ela voltasse de onde estivesse. Não haveria mas jeito mesmo.


Mas quem acha que o problema acabou aí engana-se. Ficamos no Aeroporto fazendo hora e saímos próximo ao meio-dia para a estação de metrô. Mas o máximo que conseguimos foi nos deslocar de uma estação a outra. O metrô parou. Por sorte, era um terminal de integração, onde ficamos para tentar algum ônibus. Procuramos o que comer, mas não havia nada. Todas as lanchonetes, fiteiros, barraquinhas, etc. tinham sido esvaziadas, e o máximo que coneguimos foi duas cocas zero. A essa altura, fome e medo de não chegar em casa. As notícias que chegavam pela Internet eram as piores possíveis, e carregávamos duas malas pesadas e um peso ainda maior: o da nossa frustração. Só conseguimos chegar em casa às 14h e, apesar de toda a tristeza por não termos conseguido encontrar os nossos, sentíamos um alívio enorme.

Depois de comer, desabamos na cama e, ao acordar no fim da tarde, tinha uma ponta de esperança de que tivesse sido um pesadelo muito doido, causado pela minha fobia de avião. Mas não, a ficha ainda não caiu. Apenas penso que minha frustração é, dos males, o menor. Mas como será a noite de quem sequer tem onde dormir?

Friday, May 03, 2013

Os "machos" que envergonham a humanidade

Esta semana me deparei com uma postagem no Facebook, esta rede social que, assim como abre espaço para causas justas que outrora não tinham espaço, dá voz a idiotas como o(s) que compartilhou(aram) isto aqui, causando vergonha a qualquer ser humano com o mínimo de inteligência:


Na verdade, quem foi presenteado com essa pérola foi meu namorado, que falava ao telefone comigo e tomou um susto ao ver essa vergonha despontando em sua timeline. Já faz algum tempo que vejo pessoas defendendo ironicamente um movimento de "orgulho branco" ou "orgulho hétero". Sem apelar para a sensibilidade (é esperar muito desse tipo de "gente"), vou explicar bem direitinho, com o necessário detalhamento que essas pessoas, com sérias limitações cognitivas, requerem para entender que 2 + 2 = 4. Vamos lá: por que o orgulho branco ou hétero não faz sentido? Porque esse tipo de sentimento advém de camadas sociais historicamente discriminadas. Como todo mundo sabe (até os retardados que compartilharam isso), nem branco nem hétero sofreram discriminação, mas, basta pega um livro de história do ensino fundamental I (isso se essa gente souber ler), e verá que a discriminação dos negros é um processo que está na formação da sociedade brasileira, assim como a discriminação para com qualquer orientação sexual diferente da heterossexualidade é um fato que perdura por séculos e que ao longo dos anos foi respaldado por argumentos religiosos, históricos e até biológicos - todos, claro, recheados de inconsistências.

Assim, vou desconstruir a mensagem acima bem devagarinho, tentando descer ao nível intelectual de quem a construiu para me fazer compreender. "Se você ainda gosta de mulher" é o argumento mais estúpido dessa mensagem. Isso porque quem gosta de mulher não a coloca numa posição de submissão e objetificação como nesta foto; quem faz isso, no máximo, gosta de "comer mulher" (como li certa vez numa coluna), e isso qualquer jumento é capaz de fazer, com a vantagem de que ele tem dotes maiores que os seus (intelectuais, inclusive). Sobre a imagem da cerveja e a do churrasco, não questiono associarem isso à "macheza", já que as peças publicitárias o têm feito há anos e, para esse tipo de macho, peças publicitárias televisivas são a única fonte de informação que são capazes de processar (isso se não excederem 30'' ou não trouxerem mensagens mais elaboradas). Como você pode ver na foto, a relação de adição (sinalzinho de +, para ficar mais claro) entre cerveja, churrasco e mulher, colocam-nos no mesmo nível de importância. Isso parece contradizer a afirmação de que "gosta de mulher". Pelo que eu conheço dos casais homoafetivos, os parceiros não se referem ao outro como item de entretenimento, tão descartável como um prato de churrasco ou uma garrafa de cerveja.

Dia internacional, por sua vez, costuma remeter a algum fato célebre. As mulheres que têm o seu (sem distinção entre homo ou heterossexuais) o têm devido a um grupo de mulheres que morreram para que tenhamos os direitos que temos hoje. Não sei o que esse tipo de macho, que reivindica o direito do homem heterossexual, tem a oferecer às gerações futuras, e é com esse argumento que fecho minha desconstrução. "Unidos pela preservação da espécie" talvez seja o único argumento coerente dessa vergonha publicada. De fato, esse tipo de macho tem um forte senso de preservação, e preservam com maestria tudo aquilo que nossa sociedade precisa destruir para que se tenha o mínimo de evolução. Essa espécie a ser preservada é o que menos interessa à humanidade. É a espécie vergonhosa que se acha no direito de agredir um semelhante na sua simplesmente por ter orientação sexual distinta da sua, de tratar a sua companheira como um mero depósito do seu sêmen, de espalhar pela sociedade a intolerância e o egocentrismo, sentimentos estes que estão no cerne de praticamente todas as mazelas sociais que conhecemos.

No mais, só nos restaria rir desse tipo "humano". Restaria, se eles não causassem tanto mal à nossa sociedade.


Wednesday, March 27, 2013

O individualismo que segrega

Sou parte de uma família que hoje pertence ao seleto grupo rotulado de "classe C". No passado, éramos chamados de "pobres" mesmo. Como uma criança pobre (ops, classe C), não tive carro em casa. E passei a infância sonhando com o dia em que teria um, que minha mãe poderia comprar um e me levar aos lugares sem ter medo de andar por ruas perigosas e ficarmos em paradas desertas quando fôssemos ao aniversário de alguma coleguinha. Veio a adolescência e, não tendo chegado esse dia (percebendo também que não chegaria), passei a sonhar com o dia em que tivesse meu carro. O dia em que pudesse buscar minhas amigas em casa, sair sem depender de ninguém para voltar, levar minha mãe ao supermercado, à casa das amigas, ao shopping, etc. Achava que meu carro seria minha primeira aquisição ao começar a trabalhar, que tão logo me formasse, já teria um na garagem, etc.

Devo dizer que esse dia demorou um pouco a chegar: já trabalhava há cinco anos e era formada há dois quando finalmente pude comprar meu carro. E diferentemente daquele sentimento de sonho realizado, desejo satisfeito, a sensação foi mais de alívio. Comprara por necessidade. Fazia minha segunda graduação à noite, trabalhava nove horas diárias e morava longe tanto da universidade quanto do trabalho. A realidade foi bem diferente dos sonhos: descobri um trânsito caótico, ruas esburacadas e perigosas, tributos abusivos (que nem de longe se traduzem em melhorias nas nossas estradas), etc. E, entre pegar cinco ônibus por dia e enfrentar essa realidade, tava cada vez mais duro escolher o que era pior.

Por que estou contando tudo isso? Porque sei exatamente a relação que temos com nosso carro, sobretudo uma pessoa de "classe C", para quem ter um automóvel, até pouco tempo, era impensável. Sou muito feliz em ter conseguido comprar meu carrinho e poder ter e proporcionar o mínimo de bem-estar à minha família. Nosso carro é como uma extensão do nosso lar, onde não raro guardamos até nossas tralhas pessoais. E num momento em que temos tão pouco tempo para desfrutar a individualidade do nosso lar, nosso quarto, nosso espaço, é como se o carro nos proporcionasse pequenas pílulas disso.

Ocorre que, entre individualidade e individualismo, o que muda não são só sufixos, mas a maneira como o indivíduo vê a si a ao próximo. E  problema do trânsito reside exatamente nisso: o individualismo, mais que a individualidade, tem guiado as condutas. É por isso que a história do rodízio está causando tanta indignação aqui no Recife. Os argumentos contra têm mais buracos do que a cara do Bob Esponja, mas curiosamente todo mundo se agarra a essas poucas verdades convenientes para defender seu direito de não se separar do carro sob hipótese alguma, mesmo que seja pra ir ali na padaria, que fica a uma quadra da sua casa.

Realmente, o rodízio (ou seja lá qual nome João Braga queira dar a essa sandice) é lamentável e, se o que eu li pela rede for verdade, minha placa será impedida de circular justamente no único dia da semana em que eu preciso invariavelmente usar o carro, porque tenho pouco tempo para me deslocar de um compromisso a outro. Mas mais lamentável que isso é que o senso de coletividade seja imposto ao cidadão, goela abaixo - e, sendo imposto, sem lhe dar o direito de ponderar até que ponto seu direito vai e onde começa o dos outros.

Dessa forma, ninguém está cego a ponto de perceber que o trânsito no Recife tornou-se insuportável, nem retardado a ponto de não saber nossa corresponsabilidade sobre isso. Então vamo-nos agarrar a nossas pequenas e convenientes verdades. A primeira delas, "o transporte público não nos dá condições". Mentira? Não, o transporte público daqui é caro e um nojo em todos os aspectos! Mas, quando você pode comprar um carro, você abandona a questão assumindo que busão lotado não é mais problema seu? Ou vai pra rua brigar por um transporte público de qualidade, ocupar sei lá o quê, fazer esses protestos no qual os recifenses são especialistas? Você pega seu carrinho, e a partir desse dia transporte público não é mais problema seu. Mas a mobilidade continua sendo, meu caro amigo. E mais dia menos dia você de depara com a impossibilidade real de circular com seu carrinho novo, lindo e cheirosinho (diferente do PE-15/Boa Viagem), limitado a usar só duas marchas: primeira e ré. Então surge alguém, um salvador, um profete, e estabelece a solução mais idiota possível para um problema que, por sua vez, é resultado de nossa idiotice.

Acho curioso que as nossas classes mais esclarecidas e mais abastadas (que no geral são as mesmas pessoas) estejam ultimamente tão mais ativistas do que há alguns anos, brigado pelo que é justo brigar, ocupando isso e aquilo, reivindicando os direitos sobre o equipamento urbano, etc. Só acho curioso que, na pauta dessas discussões, pouco ou nada se veja no sentido de reivindicar melhores condições de transporte público: frota melhor, tarifas mais justas, segurança nos pontos e nos transportes mesmo, mais linhas, mais integrações, etc. E acreditem, não usuários de busão: isso é um problema grave que causa muito sofrimento a quem não tem outra escolha senão pegar um PE-15 lotado às 6h da manhã. Talvez porque transporte público ainda seja uma realidade muito distante dessas pessoas, que são justamente aquelas que têm voz e esclarecimento para se articular e lutar pelas coisas. 

Então, o que vai acontecer se essa sandice de rodízio prevalecer? Os mais abastados, mais uma vez, vão fugir à luta, assumindo que não se trata de uma luta deles, na medida em que podem ter mais de um veículo de placa diferente em casa. E assim darão seu jeitinho brasileiro. Já os menos abastados (classes C e D) vão ser obrigados a voltar para a realidade de sempre, o busão lotado, com a qual vão-se resignar porque já estão acostumados a isso. Será como um sonho legal do qual acordaram. Dessa forma, o rodízio não vai melhorar o trânsito, e permaneceremos na m**** de sempre. (Talvez a classe C se mobilize no sentido de poder adquirir mais de um carro e ampliar o círculo - as montadoras agradecem e haja redução de IPI e hora extra de domingo a domingo...).

A mim, cabe apenas lamentar. De apenas dois dias em que não uso ônibus, um deles terá de ser todo reorganizado, porque tenho menos de uma hora para me deslocar de uma cidade a outra. E faço isso com o pesar de ter sido prejudicada pelo individualismo alheio e, ao mesmo tempo, com a consciência tranquila de que só uso meu carro quando necessário. Porque é mais econômico, porque leio no ônibus, porque não tenho paciência de dirigir, porque nem sempre há onde estacionar... por essas e outras, prefiro lutar para que o ônibus torne-se um lugar melhor do que viver encapsulada no meu carro em meio a uma Agamenon Magalhães completamente parada. E, ao mesmo tempo, ter o direito de escolher quando usar meu carro, baseado na crença de que as pessoas têm bom senso e são capazes de escolher. Mas livre-arbítrio sem bom senso pode ser uma arma. E a ideia de jerico desse rodízio é a prova de que está cada vez mais difícil esperar algo de bom do ser humano.

Friday, March 22, 2013

O Facebook e a institucionalização da indireta

Você acha scarpin um sapato cafona, sua colega de faculdade não vive sem os seus. Na vida real, repleta de situações assim, é fácil evitar saias justas: basta não dar sua opinião - ainda que seja apenas sua opinião - na frente dela e pronto: tem-se um círculo social saudável e "amizades duradouras". Simples assim? Não, né? Não é à toa que a vida social é repleta de gafes, de gente que diz "tal nome é horroroso", e é surpreendido com a resposta "é o nome da minha mãe", coisas do tipo... É tão corriqueiros que o mal-estar das gafes não costuma durar mais que alguns minutos, e fica apenas a lembrança para render boas risadas.

E que tem o Facebook com isso? Penso eu que, numa mídia social onde cada perfil cadastra uma infinidade de perfis como "amigos", e na condição de "amigos" tais perfis podem ver o conteúdo que você posta, fica mais difícil filtrar o que se diz e evitar as tais "gafes". Até porque, entendo eu que, a partir do momento em que você opta por entrar numa rede social que o recebe com a pergunta "o que você está pensando?", deve estar preparado para ler o que o outro está pensando e para dizer o que está pensando também.

Nesse sentido, o Facebook está-nos impondo o árduo exercício de lidar com a diferença, exercício no qual eu não sou lá o melhor dos exemplos. Assumo publicamente que há pessoas com quem convivo na "vida real", que acho boas companhias, agradáveis e tal, mas cujos perfis no Face são insuportáveis. É aí que mora o problema: com a correria do dia a dia, e a convivência reduzida a encontros via Face, tentemos a não mais conseguir distinguir o ser humano do perfil. Nesse sentido, a maneira como cada um lida com a superexposição que a rede nos oportuniza chega a criar feudos na rede.

Por outro lado, diante da diversidade de perfis "amigos" que a rede nos proporciona, é praticamente possível responder à pergunda "o que você está pensando?" sem, inevitavelmente, pisar nos calos alheios. Se você compartilha uma tirinha sobre quem foografa comida pra pôr no Insta, logo vem uma de "fotógrafos gastronômicos" sente-se ofendida, e criam-se os rumores da tal "indireta". A milenar indireta ganha, na rede social, uma mania de perseguição. Lógico, não gratuitamente. Consigo identificar a léguas de distância casais trocando farpas sob a forma de posts no Face, pessoas desiludidas publicando suas indiretas para os(as) ex, etc. É inegável que o Face potencializa o alcance dessas coisas e torna pública a troca de farpas, já que as publicações chegam ao seu perfil sem que você precise correr atrás dela.

Por outro lado, o bombardeio das indiretas (que, ironicamente, serviu de inspiração para a fanpage "indiretas do bem": a rigor um contrassenso, mas com mensagens divertidas e bem-intencionadas - e indireta bem-intencionada é no mínimo inusitado) leva a rede a uma paranoia generalizada, a uma mania de perseguição constante. De modo que, muito embora todos saibam da impossibilidade de se agradarem gregos e troianos, nem sempre estão dispostos e serem identificadas com tirinhas, piadas, etc. Não que eu ache legítimo piadas envolvendo minorias, grupos discriminados, etc. Mas comecei a pensar no quanto isso era grave quando gostei de um comentários satirizando determinada atitude e fui quase que automaticamente compartilhar. De repente, um estalo: se eu compartilhar, pessoas daqui do perfil vão achar que é indireta e vou criar um mal-estar. Parei. Desisti. Mas fiquei até hoje ruminando o acontecido.

Como disse, não sou o melhor dos exemplos de boa convivência em rede social (tampouco fora dela). Sou adepta do "está na chuva, é para se molhar", o que no Facebook pode ser traduzido em: se está se expondo, esteja preparados para curtidas e trolladas. Não fique só esperando as curtidas e fica doidinho com as trolladas. É assim comigo, por que eu pouparia alguém? Nem de longe sou politicamente correta e, assim como no cara a cara, não tenho o menor pudor de falar o que penso. E não faço isso por impulso, faço de caso pensado mesmo. Não importa se tenho poucos amigos, vale mais saber que esses poucos confiam em mim e têm em mim a certeza de ouvir o que eu penso sempre, sem meias-palavras nem comentaziozinhos às escondidas. Logo, se sou assim na "vida real", com meus amigos de todas as horas, por que alguém haveria de pensar que seria diferente com colegas, vizinhos, conhecidos distantes, etc.?

Portanto, se gostar da tirinha, compartilho. Se determinada atitude me causa espasmo de rir, vou trollar. Posta foto até c*gando? Fique à vontade, mas esteja ciente de que superexposição dá à audiência o direito de comentar - para o bem ou para o mal. Assim como meus constantes acessos de acidez têm lá seus comentários desagradáveis. Mas a mania de perseguição, que faz com que qualquer comentário de reprovação ganhe contornos de "indireta", não passa de um individualismo exacerbado, de uma sensação de que todos os holofotes estão voltados para o cidadão a ponto de qualquer carapuça lhe servir. É assim que tornamos o Facebook um ambiente cada vez mais desagradável de conviver, uma rede "social" que perde cada vez mais o caráter de social no sentido de que não aproxima pessoas, mas faz com que o individualismo nosso de cada dia nos faça empurrar nossa rotina goela abaixo para nossos "amigos". E aí, amigo, vale a máxima: a gente só dá o que tem. Quem tem foto de balada dá foto de balada, quem tem mensagm de autoajuda dá mensagem de autoajuda, e quem tem acidez... bem, este último é o meu caso.

Saturday, February 16, 2013

A saga do blaser vermelho

Naquela loja de departamentos, tudo parecia muito entediante.  Entendam a gravidade do negócio: para uma pessoa consumista, estar numa loja de departamentos e passar mais de 10 minutos sem deparar com uma peça que faça seus olhinhos brilharem é no mínimo intrigante. Mas ali, tudo parecia mais do mesmo, e ela apenas buscava comprar algo de extrema necessidade. Queria um blaser. Era meio frio no trabalho, queria algo prático, pra usar só no ambiente de trabalho e tirar tão logo saísse. O blaser seria perfeito. Mas justo agora esse danado tinha de ser a moda da moda da moda, bombando por aí com cores exóticas e estampas fechação?

Enquanto se deparava com preços bizarros e acabamentos marromenos, deparou-se com uma arara cheia de remarcações. Havia quatro deles, um de poá e três vermelhos. Pegou primeiro o de poá, olhou o tamanho, era 48. Claro, por que haveriam de vender um blaser tão lindo por um preço de apenas dois dígitos? Olhou para os três vermelhos, já entediada. O primeiro era 48, o segundo era 48 e o terceiro... uma cidadã apareceu do nada e o tirou da arara. Ela pensou em voz alta: será que haveria algum tamanho 38? E a cidadã respondeu-lhe com ar de vitoriosa: "É exatamente este aqui". E foi embora com o blaser vermelho, lindo, bem-cortado, barato e...38.

Olhou enfurecida para a cidadã partindo com "seu" blaser. Maldisse a vida por não ter olhado a arara de trás pra frente e ter visto o 38 primeiro. Desejou que o danado não coubesse na intrometida, mas tudo em vão... a raiva não passava. Olhou para ela, flanando pela lojinha com o blaser vermelho na mão: a infeliz além de tudo era magra! Então sua mãe teve uma ideia brilhante: "Vamos segui-la até o provador, vai que não cabe nela". Desconsiderou, achou humilhante. Pegou suas humildes pecinhas - nada que fizesse seus olhos brilharem - e foi ao provador, consumida de mágoa. Até que ela percebe que a cidadã do blaser está na cabine ao lado. Provou tudo que tinha de provar, saiu e ficou à porta do provador, à espreita. Viu até quando a cidadã do blaser saiu da cabine e o mostrou à amiga: percebeu que ficou horroroso nela, que o comprimento da manga tava curtíssimo (o famoso "coronha") e que ela definitivamente não sabia usar aquele tipo de peça. Esperou até o último segundo, a infeliz praticamente criara raiz no provador.

Até que saiu com o blaser na mão e, em vez se seguir pro caixa, voltou para o setor. Ela não teve dúvida, seguiu a cidadã. A baranga entregou o blaser para a vendedora, que saiu pela loja com a peça na mão. Não havia dúvida, era hora de seguir a vendedora: abordou-a e perguntou do blaser, a vendedora disse-lhe que pertencia a uma cliente, mas que talvez a cliente não o levasse. Então havia uma ponta de esperança. Fez cera pela loja, circulou, circulou, abordou a vendedora novamente: nada nada. Segundo a vendedora, a incoveniente da cidadã ainda iria provar para decidir se levaria.

Foi então que ela percebeu: essa horrorosa estava lhe trollando. Percebera seu interesse pela peça e estava fazendo tortura psicológica. E que tortura! Do tipo que não se faz com consumista alguma. Da maior falta de humanidade. Foi então que desabafou com a vendedora: a feia de plantão não iria provar coisalguma, já tinha fixado residência no provador, e que sua paciência se esgotara. E dirigiu-se ao caixa. Mas não sem antes olhar para a cidadã, listar todos os seus "defeitos estéticos" mentalmente e desejar que o blaser ficasse muito, mas muito feio nela.

Pronto, ficou leve! Numa hora dessas, saber que há gente mais feia que você nesse mundo e, acima de tudo, praguejá-la, deixa qualquer mortal, por mais cristão que seja, mais leve.

Tuesday, January 15, 2013

Espanando os grãos microscópicos de machismo

Ultimamente tenho lido com frequência discussões em redes sociais questionando o hábito pouco saudável de a sociedade atribuir a culpa de violência sexual contra as mulheres... às próprias mulheres! Se isso soa absurdo para uma parcela ínfima da sociedade, podemos dizer que já estamos diante de um grande avanço. Mas, além da grande maioria que não enxerga o absurdo dessa acusação - infelizmente ainda é um fato -, é lamentável que grande número de pessoas que se dão ao trabalho de refletir sobre a questão só o façam movidos pelo repúdio a tais atos de barbárie, quando o machismo nos é esfregado violentamente na cara. Grande parte dessas pessoas ainda guardam seus grãos de machismo, tão ou mais prejudiciais do que aquilo que nos salta aos olhos, justamente por passar despercebido. Quer ver?

Um dos conceitos mais bizarros que conheço - que ainda é muito forte - é o tal do "cavalheirismo". Veja se faz algum sentido: eu aprendo desde criança, na escola, que devemos fazer o bem sem olhar a quem e, depois de "mocinha", aprendo a atrelar valores como solidariedade ou gentileza ao gênero? Ser gentil, de repente, torna-se uma obrigação do homem para com a mulher? O homem tem obrigação de me ajudar se me vê carregando peso além do que posso suportar, mas eu não posso fazer isso se estou com as mãos desocupadas e vejo um homem sobrecarregado diante de mim? Ah, entendo: para ele, me ajudar é uma obrigação (ele vai me mostrar o quanto é forte) e, para mim, ajudá-lo é uma opção (que pode até não ser bem-vista porque posso estar questionando sua "macheza" ao carregar peso). Não me soa coerente.

Para entender o quanto até pessoas mais esclarecidas guardam seus grãos de machismo, vou contar uma história que me marcou muito por me mostrar o quanto a sociedade está longe de enxergar que homens e mulheres são igualmente humanos: iguais em direitos, iguais em deveres.  Parece óbvio? Veja só isto.

Certa vez, arrumei um namorado. Morávamos bem distantes um do outro, uns 35 km. A primeira vez que marcamos de sair, ele me ligou e disse: "A que horas vou buscá-la?". Eu me espantei: "Na minha casa?". "Sim." "Não é necessário, está cedo, não há perigo em eu pegar um ônibus, me encontra no shopping, que é mais central. Na volta, você me leva em casa, porque aí, sim, é perigoso eu voltar sozinha." Ficou combinado assim, e assim foi instaurada a rotina. Muita gente me questionou a respeito, mas aleguei que não achava justo: éramos estagiários, vivíamos com pouquíssima grana (todo mundo sabe que bolsa de estágio não é nenhuma delícia). achava no mínimo injusto o cara comprometer boa parte da sua bolsa abastecendo o carro (diga-se de passagem dos pais) por comodismo meu. (E, sim, isso faz muita diferença no orçamento de quem vive de bolsa - experiência própria.)

Anos depois, estava eu concluindo minha primeira graduação. Imprimi as quatro vias da minha monografia para levá-las ao mesmo velho ponto de encontro (shopping), onde eu as encadernaria e nos encontraríamos para comer algo e dar um passeio. Estava um dia bem feio, chuvoso e saí de casa sob uma chuva torrencial carregando comigo o fruto de quase um ano de trabalho: as quatro vias do meu trabalho de conclusão. Nesse momento, eu esperava a mesma solidariedade que tive ao "poupá-lo" da "obrigação social de macho": ali, sim, era necessária uma carona, a chuva poderia danificar tudo. Mas a carona não me foi oferecida. E também não pedi.

Ao chegar em casa, comentei chateada com minha mãe o que tinha acontecido e a minha expectativa de que ele fosse me buscar em casa e poupasse meu trabalho da chuva. Minha mãe me repreendeu, disse que a culpa era minha, que eu o "tinha acostumado mal" ao ter "liberado" de vir me buscar, anos atrás, lá no comecinho. Agora, alegava ela, ele estava acomodado por minha culpa. Ele não me dava valor (como se eu fosse mercadoria e valorasse meu "uso"). Disse-lhe que não me arrependera um só momento de ter "liberado", que não tinha a menor vocação para princesinha e que agira de acordo com minha consciência. Que apenas esperava o mesmo dele: não "cavalheirismo", mas solidariedade. Qual a diferença entre os dois? Esta último é universal, ao passo que o primeiro foi socialmente construído para maquiar uma condição de dominação.

Se há "cavalheirismo", porque não há "damismo"? E se os dois existissem e fossem equivalentes, não estaríamos falando de "humanismo", a condição que nos faz semelhantes?

Apenas queria ressaltar que minha mãe, a despeito dos trinta anos (portanto, algumas gerações) que separam nossas idades, é uma pessoa muito esclarecida e de mente muito aberta. E não disse isso de forma alguma para me ofender, mas porque acreditava que tinha agido mal, movida por "essas ideias feministas". Ocorre que, pelo menos ali, não eram ideias feministas. Eram valores humanos. Porque enquanto atrelarmos a solidariedade (um valor universal, creio eu) a questões de gênero (portanto socialmente construídas), sempre teremos mulheres que, mesmo empregdas e remuneradas, acharão justo que as despesas recaiam sobre os homens. E isso, embora superficialmente e sob uma visão bem míope, pareça uma vantagem para nós, apenas reforça a nossa condição de bonequinhas de porcelana, de quem os homens podem cuidar ou proteger, mas a quem podem maltratar e violar quando julgarem conveniente. Afinal, cada um faz o que bem quer com os "objetos" que "possui".



Thursday, December 13, 2012

semana passada, fomos à ELETRO SHOPPING do riomar e compramos uma geladeira. foi-nos dado um prazo de 3 a 5 dias úteis. o vendedor advertiu que, por conta de um feitão, a possibilidade de o produto chegar antes do quinto dia útil era ínfima. achei bizarro o cara justificar o prazo com problemas de logística deles, mas okay, o prazo foi dado eu acatei. chegando ao fim do quinto dia útil, senti falta da entrega. a esta altura, minha cozinha já estava um caos, tudo desmontado e tirado do lugar para facilitar a remoção da antiga e a instalação da nova. nada feito. foi aí que peguei o cartão de visita do vendedor e vi que tinha apenas números de celulares dele, nenhum número fixo da loja. tentei ligar para ele, não consegui. tentei ligar para um tal de ALÔ ELETRO, uma espécie de sac, mas fiquei 15 minutos na linha e nada. até que, depois de tentar insistentemente, consegui falar com o vendedor. perguntei-lhe se tinha número fixo, e ele me disse que a loja NÃO TINHA NÚMERO FIXO! ele, muito gentilmente, falou que investigaria o atraso e iria providenciar uma solução. no dia seguinte (ontem), nada. liguei novamente, comecei minha saga ao telefone desde as 10h da manhã e nada. desta vez, não consegui falar pelos celulares do vendedor. foi aí que, já ao final da tarde, liguei para o ALÔ ELETRO determinada a esperar a gravação eterna. botei o telefone no ouvido como se não houvesse amanhã e comecei a preparar minhas aulas. fui atendida após QUASE MEIA HORA DE ESPERA ouvindo uma gravação. expliquei o caso à atendente e ela me disse que tinha feito uma solicitação e que o prazo era de SEIS DIAS ÚTEIS CONTADOS A PARTIR DE ENTÃO. oi? como assim eu ligo pra me queixar de um atraso na entrega e e me dão UM NOVO PRAZO, AINDA MAIS ABUSIVO, em vez de me dar prioridade? tem cabimento isso? disse-lhe que não aceitava o prazo, que queria meu eletrodoméstico para agora, afinal tinha pago à vista e pago o frete antecipado. ela então me pôs a esperar mais trezentos anos e disse que o prazo seria hoje, horário comercial. bom, chegadas as 16h30, já comecei a me preocupar e voltei a tentar ligar. a mesma novela mexicana. o celular do vendedor não dava sinal e, quando finalmente deu sinal, ele não me atendeu. tentei a primeira, tentei a segunda e nada. foi aí que mandei uma mensagem de texto dizendo que já que ele não me atenderia, eu iria lá pessoalmente. foi então que ele atendeu à minha terceira tentativa. disse que o gerente iria me ligar imadiatamente, em minutos, era só o tempo de ele passar meu CPF pra o cara. issi às 16h34. estamos chegando às 17h e não obtive resposta. o horário comercial está chegndo ao fim e até agora nenhum sinal da minha geladeira. minha casa, um verdadeiro caos, já que precisamos remover uma mesa embutida na parede para que o produto entre no cômodo.

ao me queixar com minha prima
, ela me contou que teve problemas semelhantes com a ELETRO SHOPPING e que precisou recorrer à justiça.

ou seja, se você está pensando em comprar um eletrodoméstico, ou qualquer coisa que venha a eventualmente necessitar um serviço de pós-venda, repensem e EVITEM A ELETRO SHOPPING. se possível, exclua como opção quando estiver pesquisando preços. isso porque, a diferença de preço de um mesmo produto entre uma loja e outra é insignificante, e por causa de vinte, trinta reais, você termina arrumando uma dor de cabeça que lhe custa ainda mais caro.


sei que fim de ano é comum o trabalhador juntar suas economias ou seu suado 13º salário e investir num eletrodoméstico, que vende feito água nessa época, mas aqui fica minha advertência.

Wednesday, November 14, 2012

Mais amor no cabelinho

Minha vida anda tão movimentada que as únicas novidades são quando minha baranguice chega ao ápice e procuro desesperadamente um produto novo pra ficar apresentável. E aí, se ele dá certo, comento aqui. Daqui a pouco vão pensar que isso é um bl[uó]g de beleza. Que meus amigo etilógrafos me chamem pra beber com mais frequência e me poupem do estigma.

Há alguns meses contei a saga dos meus cachos aqui. Pois bem, como boa desleixada que sou (leia-se: megaocupada), ao aparecerem os primeiros resultados parei de fazer a reposição. Na verdade, reduzi a frequência à medida que o bicho foi pegando mais no mestrado. Um dos itens da correria foi uma viagem a Petrolina para coletar dados. Lá tava muito quente e seco, o carro que alugamos não tinha ar e eu precisava lavar o cabelo várias vezes ao dia (isso pra cachos é um verdadeiro assassinato). Quando voltei, tinha um quilo de palhas plantado na minha cabeça. Uma moita. Respirei fundo e me determinei a arrumar um tempinho pra pôr a juba nos eixos. Eis que abro meu kit de RMC e percebo que o passo 2 (máscara) tava no fim. Mas duas aplicações e xau! E como rendeu, viu? Pois bem: precisava de mais creminho porque meus cachos desintegraram e os cabelos tavam uó.

A novidade é que em vez de comprar o vermelhinho, optei pelo lilás. Qual a diferença? O lilás reúne duas tecnologias em uma: a reposição de massa capilar e matização. Para quem faz luzes e vez por outra se depara com os cabelos ficando à la cantora de brega, adicionar pigmentos violeta para neutralizar o amarelo é uma necessidade. Mas o processo resseca bastante, e todo mundo que faz luzes se queixa que os produtos silver (esses que neutralizam o efeito amarelado) ressecam os cabelos.

Mas e eu faço luzes? Não. Meu louro é natural e escuro. Mas isso só até a altura da orelha, a partir de onde se segue um quilômetro de cabelo de cantora de brega, pelos motivos que já expliquei. E, gente, por mais que eu me sinta uma biscate com essa cabelo meio loiro-cinza-escuro-sóbrio-elegante e meio loiro-dourado-amarelado-gema-de-ovo-cafona-cantora-de-brega, é duro cortar meus cabelinhos tão longos. E já cansei de ouvir 90998988776 cabeleireiros dizendo que isso só neutralizaria com coloração. E mais dano no meu cabelo eu não aceito. Foi aí que decidi comprar o roxinho.

Gente, ele é bem roxo, bem consistente e rende que só. Apliquei só na parte amarela, porque fiquei com medo que isso chumbasse a parte natural e piorasse a situação. Quando terminei de aplicar, já era noite e não senti grandes diferenças no amarelão, embora minha mãe insistisse em me dizer que o contraste entre a raiz loira e o comprimento amarelo havia reduzido consideravelmente. Mesmo sem notar tanta diferença assim, achei que valeu a pena pela maciez no cabelo, parecia que eu tinha comprado um cabelo novo. E aí, hoje pela manhã, a grata surpresa: ao observar o cabelo ao reflexo do Sol, o amarelão reduziu bastante. Logo, a expectativa tá boa para as próximas aplicações. Satisfeita demais.

Ah, o preço? 55 cascalhos (só a máscara). Ainda tenho os outros itens do kit em casa.

Saturday, October 20, 2012

Diário de Campo

Não leia isto se você for cardiopata ou nervoso! E tire as crianças da sala: o relato possui imagens chocantes...

Tudo começou quando um grupo de estudantes rebeldes resolveu se reunir para comemorar o aniversário da colega num local profano, sem livros, sem e-mails, um artigo sequer... e o pior: com ÁLCOOL! Mentira, a ideia era fazer uma pesquisa de campo. No local, sol alto e pessoas falando senvergonhices pouco acadêmicas, mas superamos esse obstáculo em prol do nosso imbricamento. Chegamos a alguns achados científicos, quando Marcelinha encantou-se com uns "bons drinque" das colegas e, sob a má influência dessas moças, pediu um para ela. Mas não curtiu o "bons drinque" e com isso refutou a refutabilidade da teoria da geração espontânea. Explico:
Surgiram peixinhos coloridos no copo dela por geração espontânea. Alguns pesquisadores desavisados anteciparam que tinha nascido uma beta no copo dela, mas beta é um peixe pouco sofisticado para uma moça de fino trato. Como boa galerosa que sou, se fosse no meu copo teria nascido uma beta-vovô, mas deixo esa elucubração acadêmica para outra ocasião, quando discutiremos as implicações gerenciais desse achado, desde que o objeto empírico não seja meu copo (nem o de Bruno, nem o de Brunno, nem o de Cedrick), onde definitivamente não nascerão peixinhos, impossibilitando nossos experimentos.

Outra disussão importante é o comportamento da ida coletiva das fêmeas ao banheiro de ambientes ruidosos. Algumas pessoas insistem em investigar as causas disso, mas acho que esse problema de pesquisa está mais do que batido: não dá pra falar mal dos homens na frente deles e qual é o ambiente onde nos livramos deles? Tudo bem que o fizemos no corredorzinho onde ficam os dois banheiros, quando saiu um macho desavisado fazendo uso da função fática da linguagem, dizendo que estávamos falando muito alto e que ele estava ouvindo lá de dentro, tudo isso com um sorriso cafuçu no rosto. Ignoramos o comentário do indivíduo, o que suscitou um novo problema de pesquisa que rende uma boa etnografia da comunicação (aê Bruno e Brunno): como esses machos acham que vão atrair uma fêmea falando esse tipo de m****?

À meia-noite, dignidade já era um significante vazio. As ladies Rafaella e Luciana asseguravam a nossa volta para casa a salvo, enquanto os homens discutiam pautas de novos artigos. Foi quando Bruno e Brunno descobriram uma substância que potencializa o intelecto a ponto de escrevermos uma dúzia de artigos numa madrugada. Como pesquisadores obstinados que somos, pedimos algumas doses desse tônico:

Dizem que o referido atende pelo nome de "tequila". Os pesquisadores-machos deram a ideia, mas duas pesquisadoras, ávidas pela produtividade, toparam consumir a substância. Mas demoraram demais a voltar de uma observação participante no corredorzinho do banheiro, e os rapazes experimentaram primeiro. Foi quando Cedrick foi-nos chamar para avisar que já tinham experimentado a substância. Mas os rapazes, obstinados pesquisadores, perceberam que não tinham consumido o tônico da forma correta. Foi quando Bruno, um grande presciosista (graaaaaande), sacou seu smarthphone e foi pesquisar a maneira mais apropriada de consumir o tônico e obter a máxima produtividade. E, como são todos perfeccionistas ao extremo, tomaram mais uma dose de produtividade líquida. A essa hora, já estavam com o cérebro oxigenado a ponto de ler um quilo de artigos escritos em aramaico.

Comemoramos na mais alta classe o aniversário da nossa colega Jouberte Maria fazendo aquilo que mais amamos nessa vida: pesquisa de campo. Além da aniversariante, os pesquisadores Bruno, Brunno, eu (Macabea), Cedrick, Luciana e Marcelinha. E, iniciando os não pesquisadores na arte da investigação, contamos com a presença de Rafaella, Tito e Carlos, "o Colombiano". Há quem diga que os pesquisadores erraram a mão e pegaram pesado no imbricamento, conversando saliências e dançando coreografias estranhas, tudo por culpa de uns pesquiadores fanfarrões que se ocupam de pesquisar temas pouco cristãos, como Carnaval, bebida alcoólica e torcida galerosa.

Abaixo, alguns dados observacionais, devidamente registrados pela câmera do maior pesquisador do grupo (maior mesmo, tem quase 2 m de altura):

 Biscatização: pesquisamos esse fenômeno também. 
 Ocasal Cedrick e Rafaella. Esta senhorita é uma das responsáveis pela sobrevivência de alguns pesquisadores após uma jornada tão extensa de experimentos.
Luciana, mas uma das reponsáveis pela sobrevivência dos pesquisadores. 
À sua esquerda, Carlos, "o colombiano".

Olhos de avidez pelo conhecimento.
 
Pesquisadores abraçados após mais uma missão comprida e cumprida. 
O pesquisador Bruno, à direita, já apresenta olhos de overdose de conhecimento; 
já Brunno (ao lado de Bruno) mostra-se eufórico pelos achados.

E, como prova de meu imbricamento excessivo (acho que naturalizei), avalio na lingua dos profanos que frequentam o locus de pesquisa: Foi do c******, galere! Vamos repetir a(s) dose(s)!





Monday, August 13, 2012

Alisamento não! Nasci assim

(Nenhum dado abaixo é tirado de pesquisa ou outra fonte segura, tudo observação. Podem corrigir as viagens.)

O Brasil tem mais de 60% da sua população com cabelos cacheados. Assim li numa revista Toda Teen quando a Seda lançou sua primeira linha para cachos e anunciou lá. Isso em 1998. Ou seja: só no fim do século XX as marcas populares começaram a se preocupar com um público que é maioria no País.

Culpa das marcas? Não. Reflexo de uma sociedade que por anos rejeitou ou cachos, transformando os fios lisos praticamente numa obrigação. E hoje, apesar do imenso mercado de produtos para cachos que felizmente surgiu, ainda há quem prefira tranformá-los em fios lisos. E, claro, as tecnologias para isso evoluíram tanto quanto - e eu diria mais que - aquelas voltadas para os cachos.

Mas tem algo que ainda não mudou: a palavra-tabu - alisamento - praticamente um palavrão, daqueles que a gente não pode falar dentro de casa porque atrai coisas negativas. Parapra pensar e olhe à sua volta: quantas pessoas não têm cabelos lisos obtidos articifialmente (e se o número de pessoas que você sabe é grande, imagine aquelas do time do "nasci assim" - que não são poucas)? Quantas dizem ter feito um alisamento? Agota tenta fechar a equeção. E aí? O resultado bate? Não mesmo!

Nos anos 80, era uma tal de massagem. Nos anos 90, o bagulho sofisticou: relaxamento, alongamento, amaciamento e outros "mentos", menos alisamento porque moça direita de família não usa esses palavreados. No fim, todo mundosabia do que se tratava e identificava facilmente que o tal alisante (outro nome proibido) pelo cheiro que aquilo exalava. Naquela época, era impossível não perceber quando um cabelo era naturalmente liso e quando era espichado (ops! alongado), mas tinha gente com cara de pau o suficiente para negar que o tinha feito. Os salões, porsua vez, não iam constranger suas clientes com esses palavrões, e cada vez criavam um nome novo para a mesma aplicação fedorenta de tioglicolato de amônia que deixariam seus fios lisos e duros feito um capacete. E cada nome mirabolante implicava um preço igualmente mirabolante, e o pobre "alisamento" lá, na última linha da tabela de preços, custando no máximo dez conto.

Mas, gente, século XXI tá aí, e esses procedi"mentos" são coisa do passado. Vivemos a era das escovas. Agora evoluímos, um número maior de mulheres já assume que os cabelos não são naturalmente lisos porque usam as escovas milagrosas: escovas progessiva, definitiva, de morango, de chocolate, de caipirinha, de sushi, gradativa, emotiva, radioativa e o c******! O que mudou?

Tecnicamente, muita coisa. A grande maioria das escovas se enquadra em um dos dois grupos: progressiva e definitiva. [agora vai a explicação de leiga] A progressiva é uma espécie de hidratação acrescida de alguma substância conservante (formol, parabeno, etc.) para manter o fio do jeito lisinho por mais tempo. O efeito no cabelo dura o tempo de um espirro, mas o efeito noseu pulmão dura para sempre. A definitiva, segundo li, é uma espécie de alisamento com tioglicolato ou guanidina (substâncias alisantes, aquelas que cheiram mal) que, na etapa da nautralização (etapa em que há um trabalho mecânico para alisar os fios), recebe um reforço do secador e da chapinha. É basicamente um alisamento, mas com técnicas mais sofisticadas. Quimicamente, me parece semelhante.

Socialmente, nada mudou. Porque os salões continuam vendendo seus alisamentos como se fossem escovas. "Escova de Júpiter", "escova sedativa", "escova de cacto", e, quando você vai ver, é só um nome diferente para a velha e conhecida pisa no cabelo. Hoje, a meu ver, o negócio é bem mais grave. Porque, sem saber ao certo o que o salão A aplicou no seu cabelo, a cliente pode ter um problema grave de compatibilidade ao mudar para o salão B. Ou ouvir a história "progressiva é compatível com tudo", aplicar determinada química e o cabelo sofrer um corte químico e ficar despedaçado. Isso porque progressiva pode até ser compatível com tudo (e eu nem acredito muito nisso), mas o que aplicaram não é progressiva. Tô cansada de ouvir menina dizer que fez progressiva e precisa fazer a raiz: não, lynda, você não fez progressiva, porque progressiva de verdade cai e não precisa fazer raiz, você faz foi alisamento, saiba você ou não e, principalmente, ASSUMA você ou não.

Porque o que falta ao brasileiro é se assumir, assumir que quer mudar, que prefere ter fios lisos, e não como nasceu. Porque os salões só fazem esse tipo de "eufemismo" porque as mulheres não se assumem, têm vergonha de admitir que seus lisos são artificiais. É claro que isso não exime os salões de sua responsabilidade, mas se alisamento não fosse um tabu estaria figurando lindamente nos portfólios dos salões mais sofisticados. Isso porque o alisamento é mais seguro, certificado pela Anvisa, não é batizado (como as escovas milagrosas são), dispõe hoje de métodos muito mais sofisticados e grandes marcas (vê se os grandes laboratórios fabricam escovas?).

Então, tá na hora de a mulherada parar com essa frescura de negar seus alisamentos e parar de ficar inventando nomes bonitos para a velha conhecida pisa. Afinal, num mundo repleto de coisas articifiais, qual mal há em escolher (e manipular quimicamente) a textura dos seus cabelos?






Monday, July 23, 2012

Momento mulherzinha II: óleo de argan


Ultimamente, tenho entrado nas lojas e sido bombardeada por uma marca chamada Yenzah. Peço uma sugestão pra ressecamento: Yenzah. Peço sugestão pra cachos: Yenzah. Uma vendedora me para no corredor e me diz que meu cabelo está amarelando e que tem uma solução: desamarelador da Yenzah, claro. Daqui a pouco vão treinar vendedores pra praticar hipnose... Geralmente, quando surge uma marca nova no mercado e ocupa vigorosamente a ponta das gôndolas, com promotoras insistentes, dizendo que seus produtos podem curar até doença degenerativa, desenvolvo uma antipatia gratuita.  Bem, não tão gratuita.

Pra coroar, ainda tem o fato de que estamos vivendo a febre do óleo de argan. Depois da fase do chocolate, da queratina, do pigmento azulado, das escovas de ingredientes exóticos, agora temos embalagens azul com laranja por toda parte. Até aí, tudo normal: é comum as marcas seguidoras fazerem alusão à identidade visual das marcas líderes para criar identificação e, ainda por cima, faturar em cima dos desavisados que acham que "é tudo igual". Mais uma vez, antipatia pela Yenzah: putz, uma coisa é fazer alusão, outra coisa é uma identidade visual quase gêmea. Mas sabe que acertaram? Aquela febre de azul com laranja nas pontas das gôndolas me venceu pelo cansaço, e fui pesquisar sobre a nova marca-babado que tanto tem investido em promoção.

As resenhas de blogueiras eram só elogios, e seriam muito convincentes se pelo menos elas se dessem ao trabalho de editar o conteúdo dos press-releases que recebem. So so boring! Um ou outro me pareceu convincente e, por algum motivo, decidi eu mesma experimentar. Comprei um kit contendo um óleo, uma máscara de hidratação e um leave-in. Em casa, de cara experimentei o leave in e achei meus cachos pouco definidos e cheios de frizz.

No dia seguinte, lavei e apliquei o óleo mecha a mecha, como manda o site da Yenzah. Depois de dez minutos, enxaguei e achei meu cabelo uma palha. Não tenho hábito de usar óleo e estranhei a textura. Então, apliquei o leave-in e fui escovar, já que o produto é termoativado. Nas primeiras mechas, achei o cabelo estranho, meio palhoso, eletrizado, sei lá descrever. Daí terminei a escova. E meu cabelo tava uma seda irreconhecível. Relmente, o frizz foi uma queixa da minha mãe, que usou o leave-in e adorou, mas recebeu o frizz. Daí eu pequei o óleo, pinguei DUAS (nunca mais que isso) gotas nas mãos, aqueci com o atrito e apliquei do meio pras pontas, principalmente nas pontas. Pranchei e fiquei com cabelo de celebridade.

Realmente, vi em algumas "resenhas" algumas meninas dizerem que deixava o cabelo mais liso, e senti isso mesmo no meu. Mas vale dizer que meu cabelo, apesar de cacheado, alisa com muita facilidade, basta um coque pra deixar ele lisinho. Mas está de uma maciez irreconhecível, como se eu tivesse feito uma daquelas hidratações/progressiva de salão em que a gente gasta rios de dinheiro e sai com cara de diva.

Ainda não tenho uma avaliação definitiva. Como o babado é termoativado e não tenho difusor para secar os cachos, tive que apelar para a escova, então não sei como seria com meus cachos. Então, apesar de eu ter nutrido uma enorme antipatia pelas ações promocionais da marca, incusive pela explosão de "resenhas" com cara de CTRL C + CTRL V, acho que temos mais uma opção promissora e com preços acessíveis no mercado.

Aqui no Recife, praticamente todas as lojas de cosméticos estão praticando o mesmo preço: mais ou menos R$ 28 pelo leave-in, R$ 36 pela máscara e R$ 48 pela hidratação (não é exatamente isso, são aproximações). O kit custa R$ 87,50 e, na hora fiz as contas na loja, seria uma economia de R$ 25, se comparado com a compra de cada item separadamente. Aí comprei o kit. O leave-in e o óleo já ganharam meu coração, e meu bophe amou o cheiro que fica no cabelo. A máscara fica pra depois.

Friday, July 13, 2012

Momento mulherzinha: levantando defunto

Ano passado, depois de anos e anos de cabelos virgens (e compridões), decidi maltratá-los. Comecei fazendo luzes, mas em poucos meses me senti uó usando aquilo, não combinou comigo e nem cheguei a retocar (menos mal pros fios). Meses depois (mais precisamente, seis), decidi usar um ruivo natural, algo do tipo Júlia Petit. Pensei que, como tenho pele e olhos claros, o vermelho iria parecer natural. Pensei também que, com os cabelos naturalmente claros (cor 6.1 - loiro escuro acinzentado), não seria trabalhoso fazer a transformação. Ledo engano.

Primeiro, foram sequências de maus tratos até achar o tom certo. Coloração, banho de brilho, tonalização, pigmentação, despacho, pai de santo, reza, pajelança... Até cheguei a um tom bonito de ruivo, e até ornou e tal, mas logo logo cansei de ficar retocando cabelo a cada 15 dias (uma rotina impossível para quem tá atravessando um mestrado nada light) e decidi voltar para o meu 6.1 de fábrica. Mas alguém saiu muito machucado dessa brincadeira: meus cachos.











(Não reparem na cara de bunda.) Antes era assim: bastava lavar e pronto. Às vezes, nem creme de pentear usava e, quando usava, era pouquíssimo. Praticamente não dava trabalho (se comparado com tudo o que as cacheadas dizem ter de fazer diariamente), podia pentear que os cachos voltavam rapidinho em questão de minutos.


Depois de infinitas colorações na cor natural, com intensificador 0.1 para o cinza neutralizar o laranja, nada adiantou. O cabelo chumbou, mas bastaram algumas lavagens e o laranja estava lá. A essas alturas, já era janeiro desste ano e decidi que não iria pintar mais o cabelo. Iria aturar essa cor de cantora de brega com resignação pela saúde dos fios. Too late!

Os cachos pararam de se formar. O cabelo não ficou liso, mas algo que nem era liso nem cacheado e mais parecia uma bucha. Embaranguei. Interrompi as escovas que fazia quando precisava e substituí pela touca, para diminuir a agressão. De nada adiantou, os cabelos estavam em frangalhos. As cabeleireiras apenas diziam: use ativador de cachos, leave in, modelador, etc., mas nada resolvia, porque o problema não eram os cachos, nem ressecamento, nem falta de hidratação, etc.

Até que um dia, pesquisando pela blogosfera, encontrei um depoimento de uma menina em situação semelhante à minha: os cabelos eram finos e a amônia da coloração deixou os fios porosos, por isso eles pareciam uma bucha. Como eu sou macaca-velha de fuçar blog, conheço muito bem publiposts muito "eticamente" disfarçados, e este não era o caso. Ela dizia ter usado o sistema RMC da Amend e que os cachos voltaram. Ainda meio sem fé, pesquisei mais, e li maravilhas sobre o produto. Sendo que eu achava benefício demais pra o preço dele. Ate que li um post no Eu <3 Cabelo e, como eu admiro muito o trabalho responsável dessa cabeleireira, tomei a decisão de experimentar.


Minhas impressões: o produto diz que repõe um percentual considerável de massa capilar na primeira aplicação, e eu, como publicitária, não botei a menor fé no babado. Apliquei na primeira vez e escovei. Achei o cabelo bonito, maciinho, a textura claramente estava outra, mas... seria suficiente para pôr meus cachos nos eixos? A hora dos cachos é que seriam a prova de fogo. E eis que chegou a hora.


Lavei os cabelos com um shampoo pra cachos comercial mesmo, passei um creme de pentear como de costume e... eles estavam lá. Timidozinhos, mas já com cara de cachos. Não ficaram 100%, mas foi apenas uma aplicação, e com ela eu já senti uma diferença enorme. Não é que o danado levanta defunto (capilarmente falando)?

Resumo da ópera (bem longa, por sinal): há muito tempo não me surpreendo com um produto dessa maneira, num momento em que eu tinha esgotado quase todas as possibilidades de dar um jeito nessa bucha e já cogitava passar a tesoura sem dó. (Afinal, tirei quase um palmo em junho e nada mudou.) Nos próximos dias, pretendo experimentar a linha da cachos da Amend (porque esta só podemos usar uma vez a cada 15 dias ou uma por semana, caso o cabelo esteja muito f***** - o que é o meu caso). O kit custa aproximadamente R$ 100, mas na loja que eu comprei sai por menos de R$ 80 se for à vista. Quem já estiver cogitando cortar os cabelos di-cum-força, vale uma última tentativa.

Thursday, July 05, 2012

Passeio na feira

Greve de ônibus por aqui. Terminadas as aulas, uma longa espera no ponto do ônibus, onde algumas alunas tomavamm sorvete e ficaram me incentivando a tomar (e ficar gorda :p). Não sabia por onde ir nem como ir, se de ônibus, metrô, van, o escambau... Apenas sabia que não convinha cruzar a Agamenon sob o risco de outro rebuliço semelhante ao da última terça-feira, quando pessoas foram obrigadas a voltar a pé para suas casas. Decidi pegar um ônibus e descer no centro de Afogados, onde pegaria um ônibus que seguiria por uma perimetral. Mas o sorvete criou um bichinho em mim. Queria porque queria um Chicabon, nem tomei minha tradicional Coca-Cola, porque queria o tal Chicabon. Desci no centro de Afogados e, quando me deparei com aquele mundo de lojas, botecos, barracas, etc., tive um surto de felicidade: não era possível que no caminho do ponto de ônibus eu não encontrasse algum Chicabon. E fui andando. Mas a caminhada me reservava um monte de surpresas que eu não esperava. É que aquele lugar, muito mais que um centro comercial tumultuado num sol escaldante das 15h30, era uma lembrança da minha infância mais viva do que eu imaginava.

Até os quatro anos de idade, morei num bairro próximo ao centro de Afogados, e meus pais iam religiosamente todo fim de semana àquele centro comercial, comigo e com meu irmão. Passei numa esquina e me lebrei do meu primeiro corte de cabelo, num salão que ficava ali, no primeiro andar. Olhei para o outro lado e me lembrei de uma banquinha que ficava na calçada, onde minha mãe certa vez comprou para mim um chaveiro de borracha com a inicial do meu nome... e que eu, por ouvir a palavra borracha, achei que servia para apagar lápis e fiz a maior borradeira na página do meu caderno. Mais adiante, o mercado público. Como era enorme nas minhas lembranças, e como ficou pequeno depois que eu cresci.

E fui caminhando sem pressa, mesmo cansada e com sono acumulado, louca para chegar em casa. Uma mistura de cheiro de frutas, um cheiro forte de caju... mas seria época de caju? Olhei para trás, não vi caju algum, e continuei na busca do meu picolé. Até que cheguei à estação do Metrô, fim das lembranças, hora de embarcar? Não. A viagem inaugural do metrô do Recife, numa tarde ensolarada como a de hoje, na companhia de minha mãe e meu irmão, estavam lá, vivinhas, como se tivessem acontecido ontem. A viagem era gratuita, descíamos de estação em estação para darmos uma voltinha, muitas delas ainda inativas, protegidas por cordões de isolamento, por onde o trem passava direto, sem parar. Uma tarde divertida...

Um ano depois, a família não seria mais a mesma, não teríamos às idas ao centro de Afogados aos fins de semana, o metrô seria uma realidade bem distante do bairro onde fui morar, e em nenhum momento dos anos que se seguiram desenvolvi algum tipo de saudade ou nostalgia. Só não pensei que, ao pisar lá ao acaso, tivesse lembranças tão vivas.

Não encontei o Chicabon, mas tomei um genérico de 175 kcal e estou carregando essa culpa até agora...

Tuesday, June 05, 2012

Saboreie pequenos instantes de anti-heroísmo

Cá estou eu dando mau exemplo e me atrevendo a refletir sobre ele.

De uns meses para cá, meu face virou uma espécie de microblogging que narra a saga da vizinha que quer estudar (eu) contra a vizinha que se acha no direito de obrigar o condomínio inteiro a ouvir o som dela. Muita gente acha que meu ódio por ela é por ela ouvir brega, pagode mela-cueca, forró cafuçu e outros tipos de música de gosto discutível, mas pra mim ela poderia estar ouvindo Radiohead (minha banda favorita): simplesmente é a postura dela (e de tantos outros vizinhos, meu condomínio não é dos mais refinados) e o silêncio dos demais vizinhos que me incomodam. E assim minha saga virou uma novela comentada no FB e fora dele: as pessoas me perguntam na rua se eu já resolvi a situação, perguntam a meu namorado se não há nada que eu possa fazer.

Sempre soube que esse tipo de condomínio em que eu moro é terra de ninguém: cada um estabelece suas próprias regras e, se estas ferirem a privacidade de outrem, este que se f***... ou que resolva da maneira que lhe convier. E eu sempre me limitando a descarregar meu ódio no FB (num pense que é raivinha não, é ódio mesmo, e pouco importa se esse pensamento não é lá muito cristão...) e pôr um par de fones nos ouvidos para poder estudar. Ou seja: graças a uma vizinha sem ética nem boas maneiras, eu prejudico meus tímpanos, por que um fone em baixo volume não me impede de ouvir o seleto repertório dela, tem de ser muito alto. Cansei de ouvir minha mãe reclamar que ouve o som dos meus fones estando a poucos metros de mim.

Aqui em casa, não temos aparelho de som. Som mesmo, sonzão, aquele com duas caixas e talz... Temos um portátil na sala, que parou de ler CD há anos (e nós utilizamos tanto que nem o consertamos), um portátil na cozinha (que minha mãe gosta de ouvir enquanto cozinha), e gosto de ouvir som no computador com meu kit autista (um par de fones que me isolam de estímulos externos). Sempre pensei: se eu tivesse um sonzão, já tinha posto essa vizinha nos eixos. Porque, pra gente que ouve esse naipe de música, uma guitarrinha minimamente distorcida com uma pedaleira de R$ 1,99 causa pânico. Até cogitei comprar um daqueles caixas de som que ligamos na guitarra, mas achei que seria gastar vela com mau defunto investir $$$ numa vingança.

Mas o quê? Nunca subestime o sabor de uma vingança.

Eis que hoje acordo de ovo virado e, ao primeiro sinal do brega dela, olhei pra o sonzinho quebrado. Lembrei que apenas o leitor de CD está quebrado, mas que nada me impedia de ligá-lo no aparelho de DVD. Foi aí que começou a vingança. Sou daquelas que tem pavor de mexer em fios, ligar isto naquilo, instalar videogame na TV, sou uma nulidade. Mas a sede de vingança foi maior. Liguei pro bophe e perguntei a ele como fazia, ele me passando o tutorial pelo telefone e eu instalando. Feito. Foi aí que, com muito carinho, botei Metallica, depois Raimundos (porque uma obscenidadezinha de leve é sempre bem-vinda para abalar a moral e os "bons costumes" da vizinhança); por fim botei a discografia do Offspring. Tudo isso cantando em voz alta, do mesmo mesmíssimo jeitinho que a vagabunda faz. Depois de mais de duas horas ininteruptas do combo música barulhenta + voz irritantemente aguda, recebo uma mensagem da minha prima (que adora Offspring) pelo FB: "prima, Offspring é aí na tua casa?". E aí me bateu aquele sentimento de realização e dever cumprido. Minha prima mora no mesmo andar da biscate, se meu som chegou lá, chegou pras duas.

E aí fiquei pensando na justiça alternativa, aquela que a gente faz quando tá em terra de ninguém e não tem quem defenda nossos interesses. Percebi que o talião é quase um instinto humano, é quase inevitável você querer que um FDP seja penalizado pelo mesmo mal que causou a alguém. Sei que não é válido porque o Estado, porque o Direito, porque zzzzzzzzzz, mas que é humano e que, em algum dia na vida, todo mundo já desejou a alguém o mesmo mal que este lhe causou, isso é fato. E aqui, nesse microcosmo, onde nem mesmo um síndico se presta a resolver esses pequenos abusos, não nos resta outra coisa a não ser lançar mão dessa conduta tão "condenável", mas tão humana.

A essa altura, a vizinha do som possante já tinha pedido licença pra c*gar e saído. Mas eu deixei meu som tocar mais um pouco para ela aprender como é que boi pega trem. Um minuto ou outro, me sentia constrangida ao imaginar que naquele momento alguém poderia estar tentando ver TV, ou estudar, ou mesmo com dor de cabeça. Mas aí eu me lembrava que essas pessoas aguentam por dias e dias o som da vizinha e se omitem. Som da vizinha desligado o mais cedo que o habitual, me sentia a justiceira da "terra de ninguém". E finalmente respeitada. Porque, meu amigo, não pense que ficar chorando as pitangas me rendeu algum respeito ou até alguma solidariedade: o que impõe respeito é mostrar que o limite da doidice alheia é sua insanidade. Com o perdão do Trident à paródia politicamente incorreta (e portanto mais coerente com a cultura brasileira) de seu slogan, saboreei pequenos instantes de anti-heroísmo. Porque estamos na terra do Macunaíma, da malandragem legitimada, que mal há em ser anti-herói?


Tuesday, May 22, 2012

A Ponte

Eu olho pra minha vida e de repente me vejo cruzando uma ponte enorme, que eu me sinto obrigada a percorrer numa velocidade muito maior do que eu gostaria. É isto: eu me sinto obrigada. O que está do outro lado da ponte, eu não faço a mínima ideia. Apenas sei como cheguei a ela. O lado onde eu estava tornara-se insuportável, o lado oposto parecia belíssimo, e a ponte fora a única saída que encontrei pra fugir daquele ambiente inóspito. Talvez houvesse outras saídas, mas a ponte foi a única que eu encontrei e que me deu segurança de seguir em frente. Mas, ao pisar o primeiro pé nesta ponte, percebi que segurança é tudo que eu não teria ao longo do percurso. Cada passo que eu dou faz despencar um pedaço dela, de modo que não posso voltar atrás. Eu estou exatamente no meio dessa ponte. Estarrecida com a velocidade com que os blocos caem e me obrigam a cruzá-la numa velocidade cada vez maior e sem saber se o que está do outro lado é melhor que o ambiente inóspito de onde fugi. Gostaria mesmo é de cruzar a ponte devagar, tem uma paisagem linda e cheia de detalhes ao meu lado, e apreciá-la talvez minimizasse a insegurança de não saber o que está do outro lado. Não poder contemplar cada detalhe dessa paisagem me deixa frustrada. Saber que os blocos caem e que não posso desistir do percurso me deixa apreensiva. Imaginar que, se não a cruzar na velocidade necessária, posso despencar me deixa em pânico. E corro simplesmente pelo medo de cair. Corro porque eu tenho que correr. A esta altura, nem cruzo mais a ponte pelo desejo de estar do outro lado, mas para não cair com os pedaços que se desfazem. Que pena! Imaginava eu que seria este o caminho mais bonito que percorreria na minha vida...

Sunday, April 29, 2012

Dia Internacional da Dança

Dentre os inúmeros sentimentos que eu tenho pela dança, o maior deles com certeza é a gratidão. Nas horas mais difíceis, é a dança que faz o piano me parecer mais leve. E, aproveitando o ensejo - hoje é o Dia Internacional da Dança -, decidi voltar ao blog, de onde tinha me afastado devido a problemas pessoais.Mas não só de coisas desagradáveis foram feitos os últimos meses. Na verdade, é do ballet que tem vindo a força pra tocar essa luta para a frente.

Por motivo de horário, troquei de turma. E agora estou numa turma que tem mais ou menos metade da minha idade. Eu sinto muita falta das minhas colegas do ballet adulto, mas o novo horário ficou bem melhor para mim e sempre que posso dou uma caminhada na ida de na volta (já que é mais cedo e menos perigoso) pra queimar as porcarias que a ansiedade me faz comer. Na turma das adolescentes, eu me deparo diariamente com as limitações da minha idade, mas, por outro lado, aprendo a lidar com isso e controlar minha autocrítica ferrenha.

A melhor parte da história é o início dos exercícios de ponta. Minha gente, é tudo muito acima das minha expectativas. Porque, apesar de toda a simbologia, que é lindo, desejado e blablablá, sempre ouvia histórias desencorajadoras: falavam-me da dor, das bolhas nos pés, da sensação de ter desaprendido tudo, porque na ponta fica mais difícil, entre outros... E quer saber? Não doeu nada. É claro que, de fato, tudo fica mais difícil, sobretudo quando você ainda não é um poço de segurança na meia-ponta, mas dor, praticamente nenhuma. No primeiro dia, nenhuma. No segundo dia, uma bolhinha no dedo mindinho. Logo sumiu. E eu descobri que gosto muito mais de fazer aula de ponta.

Pois bem, gente. A técnica continua sofrível (pra variar), e fazer exercícios numa turma que já usa ponta há mais de um ano é (mais) desafiador - porque tudo no ballet, sobretudo quando se é adulta - é desafiador. Mas aquilo me faz tão bem que nem sei explicar. Se dependesse de mim, ponta todos os dias. Mas é preciso ter os pés no chão (literalmente): ainda tenho muito o que aprender a pied plat.

Wednesday, April 04, 2012

E foi uma sucessão de portas fechando-se nas útimas semanas. O curioso é que não só as coisas que estavam por consertar não se consertaram, como coisas que estavam aparentemente certas desandaram. No fim, uma grande sensação de impotência e de que a vida está tentando me mostrar algo que eu não consigo enxergar. E se não enxergo não progrido.

Aos mais chegados, com quem divido as más-notícias, a reação é de espanto. Coisas inesperadas e raras acontecem, pessoas me mandam tomar banho de sal grosso, arruda, água do mar, etc. Eu fico me perguntando de onde vem tanta energia pesada, tanta coisa dando errado.

Chega uma coisa em que não há mais nada - do ponto de vista prático - que se possa fazer. Deixa as coisas seguirem seu curso...